Comercial FIAT Stilo Blackmotion

Fiat

Comercial FIAT Stilo Blackmotion

  • Pessoal,

    Neste final de semana vivenciei mais uma daquelas sensações de desgosto e desesperança que vem nos acompanhando diariamente. Desta vez, fui golpeado com mais um descuido das agências de publicidade e suas empresas contratantes esquisofrenicas.

    Vi a propaganda do novo FIAT Blackmotion e após uma pesquisa no Google, vi que foi a agência Leo Burnett que a produziu.

    O texto traz mensagens subliminares que não pude passar em vão sem comentá-las. Me parece que a empresa e a agência não se preocuparam em nenhuma instância com os impactos negativos que aquelas palavras e imagens geram ao telespectador.

    Achei o texto “fiat blackmotion…para poucos e maus” um tanto quanto inapropriado e uma afronta ao nosso momento no mundo. Não quero entrar no mérito do carro em si, mas sim da mensagem que passam para o telespectador brasileiro que passa mais de 4 horas na frente da TV diariamente.

    A peça publicitária passa uma sensação de que a FIAT legitima e apóia aqueles que são maus e produzem malefícios à sociedade. Se ela produz um carro feito para os maus, significa dizer que valoriza os atos dos maus e quer fortalecer suas identidades com um carro feito para eles. Os maus, que justamente são inseguros e precisam resolver uma carência psicológica, procuram ser violentos como forma de afirmação, provação, reconhecimento e medo de continuarem sendo tratados como lixo, superfluos descartáveis da nossa sociedade.

    Na propaganda, o cara que sai “perdendo” é retrato fiel da nossa sociedade em que pouquíssimos “ganham”. E ainda por cima, os que “ganham” são classificados por eles como os “maus”. São os tais espertinhos que o mundo está cheio e que a FIAT e a LEO estão valorizando e induzindo a sociedade a ser que nem eles. Ou seja, faça com que o outro sinta-se um LOSER. Todos nós já sofremos essa sensação de LOSER, fosse na educação fisica, na quimica, na matemática, com a namorada, com o emprego, etc… De frustrações já estamos cheios.

    Muitos dos atos daqueles que julgamos serem maus são produzidos porque os que julgamos bons cada vez mais os excluíram com seus padrões de vida, trabalho e consumo extravagantes e excludentes. Classificar os maus é muito difícil, mas nas nossas cidades onde os carros transitam, os maus podem ser tanto aqueles que roubam as mulheres dos outros (como na propaganda), como aqueles que querem se beneficiar dos outros se utilizando de meios repugnantes, ilícitos, autoritários, impositivos, desleais. O mundo não pode mais tolerar este tipo de comportamento patriarcal, de dominação e abuso de poder (seja o poder de pessoas ou das marcas e das coisas). Estes são valores de um mundo insustentável que sobrevaloriza a estética e o status em comparação à ética. A propaganda trouxe toda esta reflexão para mim e é uma pena eles não conseguirem se utilizar de uma linguagem renovada para atender aos desejos dos clientes.

    Nós, urbanos, jovens, somos quem pode trazer uma inovação no pensar e no agir desta comunicação diferente. Pensem só na nossa cidade, nos números de violência, nos paradoxos asfixiantes, nos níveis de insalubridade ambiental e social. Estamos todos desconfiados, debilitados e desviando nossas atenções para coisas que não estão nos fazendo bem. Há um crescente e difuso sentimento de medo. Já estamos com medo de tudo e ainda vem uma empresa e diz que agora fabrica carros para os maus??

    E se os maus que comprarem o carro, só por maldade resolverem não pagar as prestações? Quem será prejudicado por esta maldade? TODOS!

    Gostaria de aproveitar e citar Martin Luther King (negro como a cor do carro) em “Where do we go from here: Chaos or Community”, 1967:

    “A esperança de viver criativamente na casa mundial que herdamos repousa em nossa habilidade de reeditar os objetivos éticos de nossa vida pessoal e de justiça social. Sem este despertar espiritual e ético acabaremos por nos destruir pelo mau uso de nossos próprios instrumentos.

    Vivemos num tempo em que a civilização reformula sua visão fundamental; um momento de virada em que os pressupostos sobre os quais a sociedade está estruturada estão sendo analisados, questionados e profundamente modificados. Nada mais trágico que viver esses tempos revolucionários e deixar de adquirir as novas atitudes e os novos pressupostos que a situação exige.”

    Um grande abraço,
    Felipe