F1 2014: 20 anos sem “o outro cara”

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F1 2014: 20 anos sem “o outro cara”

Roland Ratzenberger, o piloto que faleceu naquele GP de Ímola em 1994

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Quando falamos do GP de Ímola de 1994, sempre ouvimos a maioria das pessoas falar “foi o GP que o Senna morreu e o Rubinho bateu feio”. Os mais atentos até dizem “teve também um outro cara que morreu nos treinos”. Pois é, o “outro cara”, que muita gente não se lembra, foi um piloto austríaco chamado Roland Ratzenberger, quase da idade do Senna (cerca de três meses mais novo).   10153171_650739091665004_4265407311846099222_nVários oceanos separam as histórias de Senna e Ratzenberger, não só aquele que separa o Brasil da distante Áustria. Enquanto Senna tinha toda uma estrutura, desde o começo da carreira, Ratzenberger fez muito mais o perfil aventureiro. Sempre sem dinheiro e com a família tendo “lavado as mãos”, só reconhecido sua paixão e talento com o esportista já na F1, Roland se virou de todas as maneiras que pôde para viver o sonho da sua vida, que era correr, estimulado (como quase todo piloto austríaco) pelo campeão póstumo Jochen Rindt.

Outro oceano

Apoio da família? Isso não existiu para Roland. O piloto se virava como podia, e pilotava um F-Ford na escola de pilotagem de Walter Lechner em Salzburgring, podendo pilotar o carro quando este estivesse livre(!). A família nunca soubia quando Roland corria e só uma vez o viram correndo (e dando show) na categoria. Enquanto Senna dava as primeiras voltas (e ganhava as primeiras corridas) na Fórmula 1, em 1984 e 85, Ratzenberger prosperava na F-Ford, onde, pasme, o Brasileiro também fez bonito. Ratzenberger ganhou os títulos europeus de 84 e 85 e levou também o título do Festival de Brands Hatch (meio que um mundial da categoria) em 1986, em cima de Eddie Irvine, que, por acaso se tornaria um grande amigo dele. Depois de 1986, as portas da categoria máxima continuavam fechadas, mas isso não impediu que o austríaco continuasse correndo onde desse: F-3, turismo, protótipos, F-3000 e carros esporte. E aí chegaram os prósperos anos 90, onde o Japão, estimulado pelos títulos dos carros Honda, por Senna e pela pujança financeira daquele período, passou a aliciar pilotos europeus para correrem nas categorias de lá. E aí Ratzenberger foi, junto de um grupo de pilotos que, em sua maioria, vingou na F1 ou em outras categorias: Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Mika Salo, Jeff Krosnoff e Andrew-Gilbert Scott. Curiosamente, todos sempre falavam que o austríaco tinha uma personalidade carinhosa e afável, e, não por acaso, ele era amigo de todos, compartilhando histórias legais e divertidas tanto dentro quanto fora das pistas.

Vivendo o sonho

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Então veio o ano de 1994. Com isso, Ratzenberger, agora com 33 anos, era um estreante que não era estreante. Se tinha zero de experiência na F1, fora dela já tinha uma “folha corrida” extensa: já havia vencido o festival de F-Ford em Brands Hatch, outro punhado de corridas na F-3, disputado cinco edições das 24 Horas de Le Mans e disputou duas temporadas da F-3000 no Japão. E aí embarcou na F1, a bordo da nanica Simtek.
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O belo (porém lento e frágil) carro roxo e seu piloto de capacete vermelho e branco, de design simples e bonito dividiram as atenções do time com um piloto cujo sobrenome tinha peso: David Brabham. No entanto, o time era pra lá de modesto. Apesar do patrocínio Master da MTV (que àquela época tinha força no tele-entretenimento mundial), o orçamento do time equivalia ao salário de Gehrard Berger na Ferrari. O compatriota Ratzenberger, então, só tinha orçamento para cinco corridas. No entanto, isso não o impediu de fazer o melhor que podia com o limitado equipamento que tinha em mãos (quiçá era o pior carro do grid de 1994). Na primeira corrida, não se classificou, na segunda, se classificou, mas terminou em 11º e último, o que, de todo jeito já foi um avanço. Aí veio Ímola…
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Nesse GP, Ratzenberger decidiu, mais do que nos outros, que daria tudo que podia em prol de um bom desempenho, mas seguindo as orientações da equipe: dirigir com cautela, por causa do baixo orçamento para reparos e carros reserva. Logo no começo da sessão, ele deu uma pequena escapada na chicane acqua minerali. A telemetria acusou problemas no carro, mas ele disse que estava tudo bem. Continuou correndo, quando, ao chegar na parte mais rápida do circuito, a pequena reta entre as curvas Tamburello e Villeneuve, o carro perdeu um pedaço da asa dianteira. Sem ele, Ratzenberger virou o volante mas, sem downforce, a dianteira não obedeceu. Mesmo tentando frear a mais de 300 km/h o carro não virou, se espatifou contra o muro e foi resvalando. 10170711_650739264998320_7936388421672977469_n
A imagem da pancada, com parte do capacete sujo de sangue e a cabeça do piloto meio “leve”, se mexendo de qualquer jeito, já denotava o pior. No mesmo dia foi decretada a morte do piloto, por múltiplas fraturas no crânio. Para o funeral, os compatriotas Niki Lauda, Gerhard Berger e Karl Wedlinger compareceram, junto do presidente da FIA, Max Mosley, a família e mais algumas outras pessoas, numa cerimônia que teve infinitamente menos gente que a morte de Senna, mas que doeu tanto quanto. Lauda falou durante o enterro: “Querido Roland: todos que também participam de corridas entendem porque você amava tanto este esporte e arriscava sua vida por ele. E aos outros, que nunca participaram, não dá para esclarecer exatamente por isto”.   Dessa maneira, o “outro cara” entrou para a história como o penúltimo piloto a morrer num GP, dando fim a uma carreira que poderia ser próspera, como também poderia se apagar rápido. Pena ou não, o fato é que Ratzenberger se foi cedo. Cedo demais até. Nota do autor: Conheci melhor a história de Ratzenberger para escrever esse post e fiquei fascinado com ela. Não só pela obstinação dele em conseguir os próprios sonhos e objetivos. Mas também pela maneira que ele viveu o grande sonho de sua vida, que era correr. Se, por um lado, Senna nos trouxe vários exemplos para serem seguidos no dia-a-dia, que são lembrados em frases e citações, Ratzenberger deixou uma história de vida de perseverança que não pode ser esquecida. Para mim, os três GPs que ele correu valeram mais que as centenas que tantos pilotos correram, e também valeu mais que alguns títulos. Por que? Porque o cara estava realizando um sonho, vivendo uma paixão. Ele queria resultados, mas a alegria dele estava acima disso. Ele havia conseguido realizar o maior sonho, que era chegar à F1, e isso ninguém tiraria dele, como não tirou. Ele também foi vítima naquele trágico fim de semana em Ímola. independente de qualquer coisa, ele não foi esquecido. geh hin in Frieden, Roland! Por Pedro Ivo Faro