Salão do Automóvel deste ano será um dos mais conservadores dos últimos tempos

Salão de São Paulo

Salão do Automóvel deste ano será um dos mais conservadores dos últimos tempos

Análise da forma de pensar da sociedade, entre carros e políticos

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Não é comum que qualquer escritor inicie um texto fazendo ressalvas. Mas o farei, quebrando o protocolo, para que a exposição das nossas ideias não sejam corroídas pelo sectarismo partidário. Portanto, vai aqui a nota inicial: Não voto na Dilma. Muito menos no Aécio. Posto em panos limpos, vamos abordar um aspecto, aparentemente coincidente, mas que reflete bem o nosso país em termos econômicos, políticos e sociais. IMG_3754[3]
O ano de 2014 traz consigo as eleições estaduais e federais, e também é data da realização do Salão do Automóvel em São Paulo, que ocorre de dois em dois anos (anos pares). Sim, aparentemente são itens desconexos. Mas acompanhe conosco e verás que a forma que ambos ocorreram (ou ocorrerão) guardam mais que semelhanças entre si. Enfrentamos, a nível de legislativo, uma baixa renovação dos deputados eleitos, a despeito do mar de lama fartamente reportado nos últimos quatro anos, onde não há partido que tenha passado incólume por tal degeneração de sua imagem. Assim, como um círculo vicioso, tal situação política leva a um quadro de descrédito geral da população, que por sua vez exerce o direito de votar sem grandes critérios, deixando ir por água abaixo a possibilidade de vermos caras limpas no Congresso, ao passo que caras sujas deveriam estar atrás das grades. E tem mais: se a população não se sente confortável com a política, a economia balança. Ou seja: os reflexos de votar mal são imensos e quase imediatos. Mas a coisa é ainda pior. Parodiando o filósofo político Tiririca, “pior do que tá, fica!”. Se enfrentamos tamanha calamidade no campo legislativo, com a culpa compartilhada entre as partes, no poder executivo a coisa é ainda pior. A probabilidade de reeleição fomenta problemas que são ocasionados por atos de governo, que se mostram interessantes para certos segmentos da economia e oneroso a outros; e fatores especulativos, típico do jogo de interesses (muitas vezes espúrios) por trás da eleição do candidato X ou Y. Em termos claros, o governo optou por manter os altos impostos de importação. Se isso é bom para o produtor do mercado interno, é custoso para os importadores em geral, a despeito de economistas que somente querem seu iPhone barato enquanto o pequeno exportador vai para as cucuias. Além disso, a alta do dólar pareado com a volatilidade da bolsa de valores causada por especulações de grupos específicos bagunça todo o poder de compra do cidadão, uma vez que os juros para financiamento sobem ao mesmo tempo que o cidadão comum opta por poupar frente à possibilidade de um futuro teoricamente sombrio, como parte da mídia alarmista grita aos quatro ventos. Ou seja: as pessoas estão gastando menos, ainda que estejam com dinheiro em caixa. (Nota do redator: eu não estou com dinheiro em caixa, excepcionalmente. Esse é um recado para os meus credores, ok?) Este é o panorama da nação em poucas linhas. E o que o Salão do Automóvel tem a ver com isso? Simples: se o mercado estagna como um todo, por que alguém vai se dispor a comprar carros?DSC04587[4]
Então, por todo o exposto, algumas marcas que pensavam se instalar no Brasil importando seus produtos começaram a recalcular seus planos, enquanto outras simplesmente encamparam por aqui para aproveitar o lado bom desta política fiscal e cambial. Isso explica porque o retorno da Mazda, da Seat e, principalmente, da Alfa Romeo é mais longo que o sequestro do menino Carlinhos. A Kia está arrancando os cabelos do consumidor vendendo (cada dia menos) veículos caros e a Mercedes-Benz, BMW e Jaguar-Land Rover bateram no peito e começarão a produzir por aqui mesmo. A BMW, inclusive, já começou. Quem tomou um chute no peito ao melhor estilo Felipe Melo foram as importadoras asiáticas, chinesas principalmente. Muito dependentes da taxa de câmbio tendendo à relação 1:1, e tendo hoje como um dos poucos argumentos sólidos o preço de seus carros, os amigos de Mao simplesmente bateram em retirada do evento ou, com exceções, estarão sem grande prosa, como prova de que o vento não anda a favor do time do Rolinho Primavera. A invasão chinesa tão alardeada em 2010 não aconteceu.

Os ausentes do Salão:

SsangYong – das três novidades do salão passado lançou duas há um mês Changhan – mesma importadora da SsangYong, Districar CN Auto – Tem Towner, Topic e tentou trazer a Brilliance, mas não vai mostrar nada no Anhembi Hayma – eram boas e belas cópias dos Mazda S-Auto – Nem sinal de vida Mahindra – Indiana e com linha de montagem em Manaus, só lançou a versão chassi da Pik-up nos últimos dois anos
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Agora, saindo da zona do agrião e se dirigindo ao clube do caviar com champagne na taça que pisca, as coisas também não andam claramente bem para importadores de veículos caríssimos e exclusivos. A Via Itália, representante de Rolls-Royce, Lamborghini, Ferrari e Maserati, mais uma vez não deixará sequer uma mesa de plástico com prospectos de algum financiamento no Anhembi, deixando de lado o duro trabalho de expositeur para a classe média mortal. Achou ruim? Pois é. A Aston Martin, representada pelo grupo SHC, de Sérgio Habib, também mandou avisar que vai passar esses dias longe da Marginal Tietê e mais próximo da Rainha Elizabeth. Triste, não é? E não acabou, pois a Bentley também não está disposta a pegar um avião em Heathrow para expor suas beldades por aqui. O que me leva a pensar que a coisa no escalão de cima realmente não está boa, e por isso almejam um dólar mais baixo para alimentar suas necessidades básicas relacionadas aos mais bacanas carros do mundo. Para fechar o 7 a 1 do conservadorismo de um evento que, portanto, não promete o brilho de outrora, talvez puxada por uma política com mais brilho que um muro de chapisco sem pintura, mais uma vez a Seat não vem para anunciar seu retorno ao mercado tupiniquim. E importadores independentes também foram enfáticos em confirmar presença VIP na lista dos ausentes da exibição.

Serviço:

29º Salão Internacional do Automóvel  de São Paulo
Data: 30 de outubro a 9 de outubro de 2014
Local: Pavilhão de Exposições do Anhembi
www.salaodoautomovel.com.br