A dinâmica refinada e a simplicidade

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A dinâmica refinada e a simplicidade

Esqueça a eletrônica: um carro bom de chão é simples

2009 Honda S2000.

Vivemos numa época afetada pela ideia de que o maior é melhor. Tamanhos disformes, pesos excessivos e complexidade eletrônica criam dilemas. Consertar aquele celular mais versátil que seu computador e com tela grande o suficiente para criar um cinema em cidades interioranas poderá ser tão caro quanto comprar outro. A tecnologia que auxilia na durabilidade dos equipamentos também está ligada à obsolescência programada. E em breve isso poderá afetar seu carro.

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O grupo Volkswagen tomou uma rasteira por trás com seus motores EA 189 com toco e me voy eletrônico sensacional, que interferia no comportamento do motor quando parado para ter menos emissões – e, não por acaso, testes de emissões são feitos com o carro parado. Isso só foi possível por causa da complexidade dos sistemas eletrônicos atuais. Acredite: o mundo de Godard e Asimov não somente está vivo como está em pleno desenvolvimento nos automóveis. Assim como no restante da sociedade, convenhamos.

Esses dias me vi explorando o interior de um Ford Fusion atual. Se está longe de ser o mais moderno dos carros atuais, a eletrônica nele embarcada não pode ser desprezada. E desta forma antevi a dor de um dos próximos proprietários, daqui a 15 ou 20 anos, que dificilmente conseguirá um reparo digno para um simples problema elétrico no painel de instrumentos.

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Porque nem mesmo botões físicos existem. Tudo são placas, circuitos elétricos. Ou se arruma um conjunto novo, ou se utiliza o automóvel até que o mesmo venha a definhar. Não há meio termo. Se hoje vemos alguns poucos modelos dos anos 90 abandonados por falta de peças, temo que o futuro é ainda mais sombrio nesse aspecto. E olha que falamos de coisas simples, como comandos de multimídia embarcada ou do sistema de ventilação, a priori.

Fiquei com essa loucura na cabeça. E no decorrer da semana percebo uma coisa aparentemente desconectada dessa primeira – mas eu provarei que não são díspares. Notei como meu carro é baixo e, da mesma forma que não tem tecido nas portas, é desprovido de eletrônica sofisticada. Mesmo assim engole curvas como poucas coisas que passam por mim no trânsito cotidiano.

Vale lembrar que é um reles popular 1.0, que me deu alguma dor de cabeça por problemas construtivos e pelo péssimo pós-venda de seu fabricante. E não, eu não passo o dia todo em vias exclusivas para caminhões de minério. Entram na comparação esportivos, carros luxuosos e de alto desempenho. E não são poucos, a despeito do país esquizofrênico que temos.

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Ok, nesse momento você deve estar se perguntando o quão doente sou eu. Mas o cerne da questão vem agora: será que demos adeus aos bons acertos de chassis? Será que o refino mecânico cada vez cede mais espaço às muletas eletrônicas? E em caso de falha destas, como estarão nossos carros? Será que até mesmo a complexidade mecânica salva o aumento de peso e o centro de gravidade bizarro dos carros atuais?

Voltemos ao meu carro. Simples, sem ABS, com pneus de perfil 175. Me passa tamanha confiança nas curvas, com seu eixo de torção traseiro, que prefiro ele a carros mais caros e potentes em minhas jornadas rodoviárias. Sim, óbvio que um controle de estabilidade seria interessante em pisos molhados ou naquela sujeira que se esconde após o apex da curva cega. Mas, fora isso, ele sai com as quatro rodas. A correção, para quem a domina, não é apenas óbvia: é prazerosa. Tudo isso porque há um equilíbrio cada vez mais raro.

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Entretanto, analisemos aquele que eu, quixotesco, tenho como meus moinhos de vento: os SUV. Ah, meu amigo. Achar um desses que faz curva pura e simplesmente pelo bom acerto do chassis é procurar uma colônia de férias na Síria. Sim, alguns deles com suspensões modernas e tração integral devoram curvas como gente grande. Mas são exceções.

Espera aí: devoram?

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Uns sim. Outros, por pneus e bitolas mais largas que possam ter, seriam hipopótamos correndo na sua cozinha sem o auxílio eletrônico. Verdade seja dita: esse não é um “privilégio” atual deles. Os carros, em geral, estão mais pesados; a engenharia das fabricantes sabe que é mais barato colocar um robô te segurando no trilho do que marretar a cabeça em uma pista de testes refinando o acerto de chassi. É um caminho sem volta, colega: não tem suspensão multilink que dê jeito.

Faça as contas: de um lado, controle de tração e estabilidade, rigidez variável de amortecedores, vetorização de torque nas curvas, frenagem assistida, et cetera. Isso faz de vários zé-manés teóricos azes do volante, apoiada na teórica infalibilidade de seus veículos, que nunca sairão de seus controles. De outro lado, dinâmica refinada, apurada. Chassis rígidos, calibração de suspensão que mostra ao motorista para onde a frente aponta e de que forma. Você sabe que o limite é alto e, melhor ainda: é indicado o quão distante ele está. Quantos carros são competentes por si somente nas curvas da vida?

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Claro, se não fosse a eletrônica, cadeiras elétricas como o Porsche 911 foi um dia não seriam facilmente domáveis e o GT-R não seria o “Godzilla”. Mas, pesando pela mesma balança: qual hatch compacto no Brasil, hoje, tem o acerto de chassis de um 205 GTI, por exemplo? Este pequeno francês ainda é referência, mesmo com aços menos rígidos, suspensões simples e sem a computação ajudando a engenharia. E não, ele não era duro ou inutilizável no quotidiano.

Grata surpresa é ver, por exemplo, o Hyundai HB20 se agarrando nas curvas com competência utilizando pneus de dimensão honesta; ou que a Renault faz seu Sandero RS com os pigmeus elétricos apenas para mitigar uma c*gada monstra, porque o carro é absolutamente bom de chão.

Parece que nem tudo está perdido, não é? É, calma lá. Vejo BMW lançando carros que vomitam sobre sua história, e a Mini lançando carros que comeram muito no McDonald’s. Os supercarros, que eram meio caminho andado para uma morte rápida e sem dor, hoje em dia permitem que um idiota com ouro no bolso sente-se no panteão dos heróis. De outro lado, a Alfa Romeo ressurge com modelos que, se não renegam a parafernália eletrônica, seguem estritamente os ensinamentos de Colin Chapman e perseguem o baixo peso para encontrar uma dinâmica perfeita. Pelo andar da carruagem macchina, eles estão no caminho certo.

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Agora, voltemos rapidamente no exemplo da eletrônica do Ford Fusion. Peguemos esse calhamaço de carros ruins ajudados por controles avulsos daqui a 10, 15 anos. Partimos de um dilema básico: ou estraga, ou não estraga. Sabendo que nada é perfeito, logo estragarão – como celulares, tablets, televisores e tudo mais. Se estragou, vem a segunda parte: ou se repara, ou não se repara. E tem que ter peça: é fácil recriar uma peça mecânica fora de linha ou adaptar, mas fazer o mesmo com um circuito complexo é impossível.

Então, caro leitor, levemos isso para a prática. Imagine aquela picape do seu tio, que nunca viu terra mas que se “impõe” na cidade. Agora, imagine um trecho de serra, com asfalto irregular e curvas atrás de curvas. E imagine, daqui a 15 anos, com um desses módulos queimados, enquanto você trafega por essa estrada. Ou você vai devagar, ou tem bolas de aço ou é escolhido de Deus. Porque é simplesmente terrível esse cenário.

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Este que vos escreve já subiu a BR 040, no estado do Rio de Janeiro, entre Duque de Caxias e Itaipava, com piso de concreto em placas desniveladas, em um carro com mais de duas toneladas em um ritmo…forte. Nada que o meu 1.0 (olha ele aí de novo) reclame em termos de curvas: a treta está na falta de pulmão da criança. Mas voltando ao carro do exemplo, o trecho de subida foi cumprido com maestria graças à eletrônica. E não pela competência do chassis do veículo que, a cada coice que dava, era podado pelos gnomos mágicos que nos colocavam de volta nos trilhos. Foi legal? Definitivamente não: quem conhece sabe que ali não está um carro bom de chão. Se não fosse a eletrônica, esse texto estaria sendo psicografado.

É só isso. Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte.

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A eletrônica é um caminho sem fim, meus caros. Cabe a nós, apaixonados, apenas torcer para que as fabricantes não se esqueçam de quem tem o bundômetro apurado, de quem sabe pelo feeling da direção se a moeda que ele atropelou era de 10 ou 25 centavos, dos praticantes do punta-tacco que virtualmente têm três pés pela sua maestria. Mas, permitam-me: o futuro é sombrio. Comprem seus carros preferidos de hoje e de ontem e guardem em local safo: não há espaço nesse mundo tão extremo e, ao mesmo tempo, pasteurizado.

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Portanto, aproveite o hoje. Boas curvas!

  • Razyr Wos

    Sábias palavras…se antes eu já tinha uma preferência pelos modelos mais antigos…mais mecânicos…depois de ler este brilhante texto, mais ainda! Eu quero um carro que possa ser passado de pai pra filho, de filho pra neto…e infelizmente, não consigo ver isso ocorrendo com os modelos de hoje. 🙁

    • Renato Passos

      Mazda Miata ND e o Toyota GT86 despertam, fortemente, tal sentimento de “carro puro” em mim nos dias atuais.

      • Razyr Wos

        Entristece que o GT86/BRZ/FR-S não vende tão bem como os fabricantes gostariam…mas acho que eles definitivamente deviam oferecer uma versão mais potente, que no final é o que mais acaba chamando a clientela que depois pega um exemplar “civil”…rsrs
        Gostei muito das avaliações feitas com o Miata ND…a receita do Tio Colin nunca falha! rsrs

  • Pedro Cunha

    Excelente texto, Renato!!!!
    Faço a mesma reflexão acerca dos carros dos anos 90~2000 e partilho do mesmo temor sobre os “navegadores eletrônicos” e o futuro dos autos vendidos hoje… Talvez eu esteja exageradamente errado e/ou exageradamente pessimista, mas prevejo uma vida mais “longa & feliz” para os populares “pé-de-boi” que ainda temos(Onix, Palio fire, Celta, Uno, Gol city, Fox, Fiesta rocam…) do quê para modelos “médios” ou “médios-grandes” que ostentam babás eletrônicas por todos lados e comandos elétricos/eletrônicos para tudo.
    Imaginem só os assistentes de estacionamento de Ford e VW daqui uns 15 anos… vão precisar de óculos e remédios para labirintite.

  • dogmarley

    belo texto!