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Como distribuir o peso corretamente em seu carro?

Distribuir a carga no seu automóvel também é questão de segurança

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É sempre interessante quando colocamos em pauta questões que têm a ver todos nós, motoristas habituais. Por isso, esse texto é voltado para você que costuma viajar pelo Brasil (ou mesmo no exterior), levando desde uma simples valise até a capacidade máxima do seu automóvel. E seja ele qual for, desde um humilde Fusca até um divino Bugatti. Se você for dono de pick-up, atenção redobrada ao que falaremos aqui!

A questão é: como você distribui a carga no interior do seu veículo e como isso interfere diretamente na sua forma de dirigir, na segurança de quem está contigo e de outros motoristas. Mas, antes de aprofundar o assunto, já irei para um exemplo prático que abriu meu olhos para a situação. Se eu soube identificar e corrigir o ocorrido, muitos outros não souberam fazê-lo e se tornaram vítimas fatais nas grotescas estatísticas de trânsito.

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Pois bem: toda vez que pegamos um carro novo, demora um tempo para que estejamos plenamente adaptados às suas características. Vulgarmente, para pegar os seus macetes. Passei meu primeiro mês com o carro viajando, mas sempre carregado. Entretanto, nessa quarta-feira de cinzas, pela primeira vez o fiz sozinho, apenas com minhas malas. Tentando acomodá-las da melhor forma, sendo uma mala grande e leve mais duas mochilas bem pesadas, coloquei a mala junto à parte traseira do encosto do banco de trás, e as mochilas entre a mala e o batente do porta malas. Vendo o carro de perfil, teríamos: banco traseiro-mala-mochilas-tampa do porta-malas. Deu para compreender, né?

Com as coisas no lugar, pé na tábua. Quem nos lê frequentemente sabe que eu sou o dundee mineiro e, como tal, trafego pelas estradas locais, sempre sinuosas e traiçoeiras. Após sair da cidade e já desenvolvendo maiores velocidades, sinto o carro um pouco hesitante em responder nas curvas em comparação a situações anteriores. As curvas se sequenciam e o carro teima em sair de frente de forma perigosa, principalmente nas retomadas após o vértice das mesmas. Logo, a dianteira se mostrava mais leve que o normal. Mais um par de curvas, e a charada é resolvida: as mochilas aplicam um peso no balanço traseiro do carro (o comprimento entre o centro do eixo traseiro e o final do carro), fazendo uma gangorra cujo centro é o próprio eixo traseiro. Isso fazia com que a frente se levantasse, interferindo negativamente na aderência dos pneus dianteiros.

Pneus descontrolados: indício de peso mal-alocado

Pneus descontrolados: indício de peso mal-alocado

Problema identificado. Mas como resolvê-lo? No meu caso, foi simples. Parei o veículo em local seguro, tirei as mochilas do porta-malas e as coloquei no assoalho, entre os bancos dianteiro e traseiro. Problema inteiramente resolvido e com direito a estrelinha na testa! Tratamos aqui de um problema de fácil resolução e sem maiores incidentes. Mas nem sempre é assim. Por isso, vamos primeiro aos efeitos dinâmicos de uma carga mal acomodada para, em seguida, tratarmos do arranjo espacial das mesmas.

Carga alocada de forma segura no habitáculo do veículo

Carga alocada de forma segura no habitáculo do veículo

Aulinha de física do professor Renato*

*o quase-escriba-quase-engenheiro

Deixe de preguiça: vamos à física. Basicamente, trataremos de efeitos, como se o carro se transformasse em uma gangorra. Sim, essas simples, de parque. Mas, em algumas situações, o pivô (o ponto neutro da balança) será o eixo traseiro. Nas outras, será o dianteiro. Por fim, preciso explicar o que é o Centro de Gravidade de um corpo. Em palavras simples:

“O centro de gravidade de um corpo é o ponto onde pode ser considerada a aplicação da força de gravidade de todo o corpo formado por um conjunto de partículas. Essas partículas são atraídas para o centro da Terra, cada qual com sua força-peso. Centro de gravidade, portanto, é o ponto onde pode-se equilibrar todas essas forças de atração.”

Centro de Gravidade de um corpo, e seu deslocamento pela variação geométrica

Centro de Gravidade de um corpo, e seu deslocamento pela variação geométrica

Ou seja: Centro de Gravidade (CG) é onde se “concentra” a massa de um corpo, como um todo. Se adicionamos a este corpo uma massa extra na parte de trás, o CG tende a ir para o mesmo sentido. Se adicionarmos mais uma massa em posição superior, o CG tende a subir, e por aí vai.

Em um automóvel, o ideal é que o CG esteja mais próximo do solo (evitando a rolagem sobre o próprio eixo), bem como localizado no centro do entre-eixos e no eixo de simetria longitudinal do automóvel (evitando que o veículo desenvolva velocidade angular relativa indesejada. Ou seja: rode). Em termos práticos, o CG ideal se posiciona logo abaixo do banco do motorista e do passageiro, exatamente entre eles.

Center-of-Gravity-Distance-1Você, ilustre leitor, argumenta: “Renato, seu ímpio. Estamos falando do mundo real, onde os carros não têm CG ideal e Justin Bieber faz sucesso!”. Exato, eis aí o problema. E mais: lembra-se da explicação dada acima? Logo, sendo o carro um corpo, caso você adicione uma massa a ele…o CG se move! Deslocando o Centro de Gravidade, pode-se dizer que a proporção da distribuição da massa ao longo do espaço se alterou, não? Tá aí outro problema. Porque os fabricantes estimam que o carro terá uma proporção “X” do peso sobre o eixo dianteiro e “Y” sobre o traseiro, de forma tal que X+Y=100%. E sobre essa estimativa são desenvolvidos os sistemas de suspensão, chassis e frenagem. Se você muda isso, companheiro, é caixão e vela preta: fatalmente algo sairá dos trilhos.

Mas, se acalme. Não abra o OLX agora para anunciar seu carro: os fabricantes operam com uma grande margem de segurança quanto a essas variáveis. A grande confusão se dá quando, por algum motivo, você faz com que seu veículo opere fora dessa faixa. É o que queremos evitar!

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Peso mal alocado: vilão por vezes fatal

A questão é: o que acontece se eu colocar o peso da forma errada? O mais comum é cometer o mesmo erro que eu cometi: excesso de peso na porção posterior do veículo. Com isso, ocorreu o efeito gangorra que disse acima. A traseira pesa, a frente alivia a força sobre as rodas dianteiras e, comumente, o veículo torna-se subesterçante. Isso é, ele tende a alargar a trajetória da curva, com a frente apontando para fora da mesma além do devido. A correção ao volante é simples: basta aliviar, gradativamente, o pé do acelerador, ao mesmo tempo que de forma suave aplica-se mais giro ao volante no sentido da curva, também de forma suave.

As rodas apontam para dentro, o carro alarga a trajetória - este é o subesterço

As rodas apontam para dentro, o carro alarga a trajetória – este é o subesterço

Como evitar isso? Pela ideia do CG, o ideal é colocar as coisas mais pesadas em locais mais próximos do ponto ideal do CG. Isto é, no piso dos passageiros que viajam atrás. Mas, atenção: isso pode ser perigoso! Cargas acomodadas soltas no interior do veículo são causa de morte ou sérios ferimentos em caso de impactos, até mesmo os mais simples. Por isso, se você não conseguir fixá-los de forma segura (como eu fiz utilizando cordas e o próprio cinto de segurança), coloque sempre os itens mais pesados o mais próximo possível do banco traseiro dentro do porta-malas. E sempre na posição mais baixa possível. Transportar coisas sobre o tampão traseiro? De forma alguma: um atentado à segurança e à dinâmica do automóvel.

No caso das picapes, existe um ingrediente extra nessa salada. Peguemos como exemplo uma pick-up de cabine simples e entre-eixos relativamente longo. Imagine, agora, que acomodamos um item bem pesado na caçamba encostado à cabine. Montou a situação na sua mente iluminada? Pois bem: neste caso o pivô da gangorra está no eixo dianteiro. Por mais que os passageiros e a carga estejam na parte posterior do pivô, com o motor à frente do mesmo (ao menos em parte), esta situação foge aos parâmetros esperados pela fabricante. Ou se distanciam do quadro de melhor performance do veículo.

1985 Toyota 4x4 Truck

Sabe quais são os efeitos da situação acima descrita? Nas frenagens, a frente torna-se muito mais pesada que traseira. Com menos força vertical sobre o eixo traseiro, o coeficiente de atrito diminui… temos aí um quadro típico de travamento das rodas. É verdade que o ABS controla magicamente essa situação, mas ainda temos várias picapes rodando sem o equipamento.

Nas curvas, a coisa é diferente: no início o utilitário pode apresentar também leve subesterço, mas, subitamente, o comportamento se torna sobreesterçante, com a caminhonete “saindo de traseira” e a frente apontando mais que o devido para o interior da curva.

Frente para um lado, traseira para outro: o temido sobreesterço

Frente para um lado, traseira para outro: o temido sobreesterço

Nessas horas, amigo, pode convocar o santo ou entidade de sua preferência e esperar a ação dos mesmos. Porque são pouquíssimos que dominam o contra-esterço (você sabe o que é e como se faz? Comente abaixo. Se for necessário, explicaremos em um novo post). Fazendo o contra-esterço, as coisas tendem a voltar ao normal. Mas, estando o veículo sem o controle devido nessa situação, o fim tende a ser trágico. Logicamente, o controle de estabilidade também coloca seus gnomos verdes a serviço da segurança nesse tipo de situação. Mas, novamente, são raros os modelos com o equipamento. Vale a pena evitar, não?

Então, evitemos. Como? Sempre acomode os itens mais pesados pouco a frente do eixo traseiro, novamente na posição mais baixa possível. Se o volume for grande, faça o melhor uso possível da área compreendida entre o eixo traseiro e a parede divisória da cabine de passageiros, sempre tentando acomodá-la a frente do eixo posterior mas nunca concentrando o peso muito a frente. Atrás do eixo traseiro? O efeito balança descrito no veículo convencional se repete, mas em maior intensidade. Mais subesterço, mais riscos, menos controle. Já sabe, né: de forma alguma acondicionar cargas pesadas entre o traseiro e a tampa da caçamba.

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Enfim, este ensinamento é simples. Mas é capaz de salvar vidas. Pratique-o sempre acomodando seus volumes de forma rígida, evitando a movimentação dos mesmos. Porque carga que se mexe faz com que o CG também se mexa instantaneamente. E, meu amigo, no campo da dinâmica veicular, o movimento excessivo dele é tão venenoso quanto uma picadinha de uma píton no pescoço. Faz do comportamento do carro mais imprevisível que a vida de Britney Spears. Não vale a pena, definitivamente.

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Pratique-o, e assim temos mais segurança nas estradas e ruas. E até a próxima!

  • lucasfs

    Raramente carrego “”” peso””” no corsa sedan. Mas sou daqueles que, carga é no compartimento de carga; pessoas, no habitáculo, até minha mochila de trabalho com minha marmita e a chave de casa vão na mala